Sexta-feira

para tudo

Quarta-feira

Segunda-feira

do mario quintana

DA ETERNA PROCURA
Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada...
E terminamos desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.

Quinta-feira

Primeira vez


Finalmente comprei um cinto: verde!

Segunda-feira

Pra quem tem tempo

… UM.

Ordens Superiores me incumbiram de criar um personagem. Senta, levanta, senta, para, inspira, pensa. Branco. Tenta com força, tenta sem força. Nada. Fuça, esmiuça, carafuncha. Sumiram todos. Acenderam a luz.
Eu não acredito no que não existe e não falo do que não conheço. É uma Questão Maior de Princípios Invioláveis. Sento-me.


Sento-me. DOIS.

Um personagem, apenas um. Se não for impossível então é inviável. São muitos, em constante movimento. Da minha janela os vejo sempre de passagem. Nunca me olham; não sei se sou incrivelmente discreto ou deliberadamente ignorado. Acontece que quando pouso meus olhos em Algum, ele sai de foco até desvanecer por completo. Vira paisagem, logo uma curva, perder de vista. Só dá tempo de ouvir seus nomes ou quem sabe algum contorno. Vagos. Só existem coletivamente. Ninguém me nota. Mas tenho nomes.


Mas tenho nomes.TRÊS.

O Culpa é um sujeito especialmente escorregadio. Parece peixe, e eu tentando pegar com as mãos. Nunca vi seus dois olhos, está sempre de lado, cabelo no rosto. Os pés largos sugerem pernas grossas, mas é apenas uma suposição, porque está sempre debaixo de vários panos. Casacos que são cavernas, e calças que tem bolsos dentro dos bolsos, inúmeros. Sempre sozinho, ele nunca passa em frente, sempre pela margem. Quase não fala, só olha. Nunca está no foco da ação. Se as pessoas se reúnem numa casa, ele está no vizinho. Se houve um acidente, ele está na próxima quadra. No restaurante, se um casal se desentende, ele passa na entrada, junto aos manobristas. Mais não sei.

A família Modelo nem vale a pena descrever. Um pai, uma mãe, o filho mais velho, as gêmeas e o cachorro Doméstico. O nome já diz tudo, descreve até a fachada da casa. Odeio os Modelo, eu e a torcida inteira futebol clube. Não deve ser fácil nascer nessa família. Bem feito.

Verdade é uma menina que não sabe onde está, nunca. É uma criança feliz, nem sabe que está perdida. Aos seis ninguém sabe. Ninguém a conduz pela mão e assim ela vaga, empenhando nisso toda a sua atenção. Para numa vitrine. Conversa com a senhora parada no ponto de ônibus. Debruça sobre um portão. Faz festa num cachorro. Vai andando de poste em poste.



Para numa vitrine. QUATRO.

Chegou o dia de conhecer Diótima.
Ela estava na minha frente na fila do caixa, supermercado cheio. Prudente, baixei os olhos, pois gosto de saber onde piso. Subi um pouco a vista e encontrei um carrinho cheio até a metade, um cotidiano, e uma moça apoiada nele. Divido aqui a leitura do conjunto. Ah sim, no falante do hipermercado, Stevie Wonder, You are the sunshine of my life.

Ração, atum, uma lata de guaraná light.
Os cabelos curtos são um convite: veja minha nuca, veja meus detalhes. Mora sozinha, do outro lado da cidade e está aqui de passagem. Veio buscar o carro no mecânico e aproveitou para dar um alô ao seu pai. Cresceu nos arredores e conhece cada gôndola.

Ovos, açúcar, fermento, farinha, essência.
Diótima é uma mulher recente que gosta de coisas antigas. Está se preparando para um grande feito: o Bolo de Nozes da Avó Genésia. As consequências são imprevisíveis. Ninguém subiu nessas alturas desde a morte da querida Dona Nésia.

Desde então o pai de Diótima, Diógenes, nunca mais fez aniversário, parou nos 62 e ficou por lá mesmo. Ano passado ele até tentou, chegou mesmo a aceitar o convite das filhas para almoçar no restaurante, mas teve um surto de soluço providencial, durou justinho o dia do aniversário.

Todos os anos, desde o seu nascimento até morte de sua mãe, Seu Genes vivia um breve ritual. Sentia o cheiro que exalava das especiarias misturando-se à massa úmida das nozes, sob a fina camada de glace branca, que cedia delicadamente a cada mordida, tudo muito bem enfeitado com pequenos cérebros de esquilo. O fato de saber a verdade sobre o invólucro – sempre foram nozes –, não destituiu o poder mítico de seu conteúdo. Todo ano, na primeira garfada, Seu Genes visitava o começo da vida e estabelecia no presente um novo Marco Zero. Foi assim que cresceu, estudou, se casou, se multiplicou. Já não se tratava de doce preferido, era uma Questão Maior de Princípios Inquestionáveis.

Ele nunca falou nada, mas Diótima sabe que o soluço é um ar que foi para o estômago. Uma garfada de vento. Esse ano pretende presentear seu pai com mais um ano. Não, não será fácil. Seu Genes está confortável com 62, é evidente. Sentou-se na poltrona e agora só se levanta por motivos fisiológicos: comida, ic, banheiro, ic, futebol, ic. Mas… como seriam 63? Por não se aguentar com a curiosidade, Diótima está decidida a Intervir.

Ela não acredita no que não existe, e já viveu o suficiente para saber que o destino existe e Ponto. Um gato que mia e, enquanto ela se vira pra olhar, deixa passar o carro que iria pegá-la na curva. Outras vezes ela é gato.

Iogurte, papaia, linhaça.
Tem as questões intestinais mal resolvidas, nada patológico, ela leva isso mais como uma característica feminina. Diótima já é uma mulher, embora ás vezes isso não pareça nada de extraordinário.

Um par de havaianas azul claro.
As coisas que ela gosta muito são:
TARDE DE CHUVA. Ainda mais quando há uma cobertura de telhas pra ficar ouvindo o eco da Terra quando ainda não havia gente.
APERTAR CRAVOS. Mas não gosta muito dos moles, prefere aqueles endurecidos, mais antigos, que de maduros já não se confundem mais com a pessoa que habitam. Esse encontro proporciona uma felicidade difícil de contar. Um prazer autêntico, instintivo, primitivo. Como quando ainda não havia gente na Terra.
TIRAR FOLHAS amarelas de uma planta, pode até ser do mato. Brincar de deus.
TRILHA SONORA. Mais que a música propriamente, ela gosta mesmo é de quando um som se infiltra nas brechas de um momento. Brincar de filho de deus.

Quatrocentos gramas de carne moída, frango empanado congelado.
As coisa que ela detesta:
Gente quando quer ser coitado. Aí é que ela maltrata mesmo: então toma. Ela também detesta o que sente depois de então toma. Feridas purulentas na televisão, cheiro de frango cru, etc. Gente que fala De Manhã Cedo.

Sais de banho, que isso tudo me deixou exausto.

Esmalte Colorama Suave Cotelê.
Colocou suas coisas na esteira e foi indo embora aos poucos, item por item, até o último bip da caixa registradora.

Obrigada, volte sempre.

Domingo

Galaxias, H. de Campos

Dia 1


Pronto. Chega de falar. Aos trinta a gente pega com as duas mãos.